ANDA – Você já se referiu ao aspecto antiético da prática vivissecionista, no que tange aos animais de forma direta.
Existe alguma outra faceta antiética ligada à experimentação animal?
Paula Brügger – Fora o aspecto mais imediato e evidente de causar sofrimento e morte a seres sencientes – isto, é aqueles capazes de sentir dor e emoções como alegria, ódio, ou medo – o caráter antiético da prática vivissecionista encontra-se relacionado mais uma vez a questões epistemológicas. É interessante destacar que o filósofo alemão Herbert Marcuse nos ensina que ética é, em si, epistemologia e vice-versa.
Isso fica claro quando retomamos a questão da baixa confiabilidade dos modelos animais.
Devemos reconhecer que nenhum método – seja ele baseado em animais, seres humanos, ou tubos de ensaio – é capaz de prever as reações dos pacientes com 100% de precisão.
As reações diferem de acordo com o sexo, a idade, o grupo étnico e mesmo entre membros da mesma família.
Somos todos diferentes, bioquimicamente únicos, embora não tão diferentes uns dos outros quanto somos dos animais não humanos, é claro.
Dessa forma, apesar de todos os genomas humanos terem mais de 99,9% de identidade, a pequena proporção de 0,1% de diferença pode produzir uns três milhões de polimorfismos, ressaltam os Greek (vejam que, mais uma vez, a prática encontra respaldo na teoria sistêmica).
Muitos deles não têm efeito, mas os que têm impacto na expressão e função de proteínas podem afetar o funcionamento de drogas.
Alguns exemplos estão relacionados ao metabolismo do colesterol, à manifestação da asma e aos transmissores de serotonina. Tudo isso só reforça a ideia de que usar animais em estudos é ineficaz e antiético, pois nenhuma dessas particularidades pode ser descoberta nos modelos animais.
Archibald, citada antes, diz que a massiva ênfase na confiabilidade dos dados provenientes da experimentação animal permite que as companhias farmacêuticas evitem conduzir etapas clínicas mais criteriosas, mais representativas, com mais pessoas e durante mais tempo.
E que os testes com animais são feitos por razões legais e não científicas, visto que isso protege as empresas contra processos decorrentes de efeitos colaterais prejudiciais ou letais.
Mais grave ainda é que muitos compostos químicos cujos efeitos nocivos encontram-se fartamente documentados – em estudos epidemiológicos, clínicos etc. – podem ser “inocentados” via experimentação animal.
Isso acontece porque os testes geram dados contraditórios e inconclusivos, o que, em tese, é muito bom para a indústria.
É como enfatiza o Dr. Neal Barnard, presidente do “Comitê Médico por uma Medicina Responsável”: usando diferentes espécies em diferentes projetos, os cientistas podem encontrar evidências que sustentam qualquer teoria.
No caso do cigarro, por exemplo, tanto as provas de que o tabaco é cancerígeno, quanto as que asseguram a sua inocência, usaram animais como base.
Há inúmeras outras facetas antiéticas ligadas à experimentação animal, tais como os gigantescos interesses econômicos envolvidos na criação e venda de animais, aparelhos de contenção, gaiolas, e os próprios fármacos.
O setor farmacêutico é um setor produtivo que, como qualquer outro em nossa sociedade, precisa constantemente colocar novas drogas no mercado a fim de assegurar lucros crescentes.
E isso, independentemente de as novas drogas serem mais eficazes ou seguras do que aquelas já existentes no mercado (
sic).
Não vou explorar aqui esse aspecto, mas recomendo que o leitor procure na Internet, por exemplo, os depoimentos da Dra. Marcia Angell, autora do livro
A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos. Para encerrar esta pergunta, creio que é esclarecedor trazer à discussão alguns dos questionamentos de Paul Thagard quanto à distinção entre ciência e pseudociência (falsa ciência).
Ele recomenda examinar, entre outras questões, se a comunidade de praticantes está tentando explicar as anomalias da teoria e se as consideram importantes; se estão comparando o sucesso da teoria com o sucesso de teorias alternativas/concorrentes; e se a comunidade científica procura provar ou reprovar a teoria.
No âmbito da experimentação animal, nenhuma dessas perguntas, aparentemente, se faz presente: elas são desafios de natureza ética e epistemológica que representam ameaças à continuidade da experimentação animal e ao mundo produtivo ao qual ela serve.
ANDA – Quais as dificuldades de abordar, no meio científico, questões de cunho ético que dizem respeito à nossa relação com os animais não-humanos?
Paula Brügger – Esta pergunta é muito boa porque nos remete ao universo muito mais amplo de pensamento e ação mencionado antes – à “lente” através da qual conhecemos a natureza e seus fenômenos – que prima por uma racionalidade mecanicista, instrumental.
Recorro mais uma vez a Marcuse, que nos ensina que nossa forma dominante de construir conhecimento é baseada na quantificação da natureza.
Mas a tradução da natureza em termos de estruturas matemáticas (por exemplo, a coleção de dados como pesos, alturas, percentuais, informações estatísticas, quantificação de danos ambientais etc.) criou a ilusão da existência de uma realidade autônoma, independente do observador humano.
Isso acabou separando a Ciência da Ética e resultou na dificuldade de vermos nossos “objetos” de estudo em termos de causas finais (isto é, dotados de valor intrínseco).
Essa é a base da visão da natureza como uma grande fábrica, como uma parte produtiva do todo.
E dos animais (mesmo os humanos) como recursos ou meios.
Ao estabelecer a quantificação da natureza como um pré-requisito para conhecê-la, a ciência foi também paulatinamente destituindo a importância dos nossos sentidos como forma confiável de conhecer o mundo.
O conhecimento passa então a ser construído, cada vez mais, por meio do domínio ou mesmo da libertação dos sentidos.
Não é difícil aquilatar o quanto tudo isso foi especialmente nefasto no caso da nossa relação com os animais.
O conceito de especismo é, com isso, particularmente relevante para a compreensão de nossa relação com os outros animais, uma vez que contextualiza e detalha um aspecto do antropocentrismo como traço cultural que domina nosso olhar sobre a natureza.
O especismo encontra-se na base de nosso pensamento.
Estamos imersos dentro dessa “bolha” ou “lente” paradigmática que – como antolhos - nos impede de ver o que é evidente, o que os sentidos nos mostram o tempo todo: que os animais não são autômatos incapazes de pensar; que eles têm linguagem; que são sencientes; que gerenciam sua saúde e seu bem-estar; que têm uma expectativa sobre o futuro (e lembranças do passado); e que, em alguns casos, têm o que podemos chamar de uma protocultura.
Tudo isso deveria lhes conferir direitos, sendo o direito à vida o mais evidente.
Mas falar de uma ética que inclua os animais não humanos como parte da comunidade moral equivale a tentar virar o mundo de cabeça para baixo.
E tratar desse assunto pode ser tanto mais difícil quanto mais alto o nível de escolaridade das pessoas.
Isso porque, dependendo da área em que trabalham, ou estudam, pode haver conflitos de interesses.
Agir de forma eticamente correta é geralmente mais difícil porque, frequentemente, nos vemos forçados a abandonar nossas zonas de conforto mental para abrir mão de práticas (ou costumes) moralmente injustificáveis, independentemente de o quanto isso possa nos afetar.
A maior parte dos alunos das fases finais de cursos de graduação como as Ciências Biológicas, Bioquímica, ou Farmácia não deseja ouvir discursos inconvenientes que abalem suas convicções, construídas ao longo da graduação, quanto ao que seja fazer Ciência.
Numa experiência acadêmica recente, que durou três semestres, me senti diversas vezes como se estivesse falando para uma parede de granito.
Mas a resistência dos alunos em ouvir o que poderíamos chamar de “lado B” da experimentação animal – e outras relações especistas – é um mero reflexo do ambiente em que estão.
Os estudantes espelham as visões de mundo de seus professores. E, entre estes, praticamente não há vozes contrárias à vivissecção.
Os poucos que não “simpatizam” com a prática tampouco a condenam de forma aberta e sistemática. A questão – de ser contra ou a favor – costuma ficar na esfera das convicções pessoais, ou seja, o assunto não é tratado como algo que mereça uma reflexão acadêmica.
Isso se deve, mais uma vez, ao fato de não se tratar o tema sob o ponto de vista epistemológico.
Vale destacar também que, como os animais não são vistos como pertencendo à comunidade moral, muitos professores preferem não se indispor com seus colegas vivisseccionistas.
É preciso pontuar, inclusive, que nas Ciências Biológicas é relativamente comum sacrificar vidas animais para estudar.
Ainda que tais práticas não se constituam em “experimentação”, isso contribui para “esfriar” eventuais críticas à vivissecção.
Além disso, há o aspecto do prestígio e da produtividade acadêmica.
Mais uma vez cito os Greek, que comentam que, enquanto um pesquisador clínico publica um trabalho, um vivisseccionista publica, em média, cinco.
Isso acontece porque “um rato é um animal que, quando injetado, produz um artigo”, enfatizam eles.
Já presenciei algumas cenas nas quais os estudantes são insuflados por seus professores a adentrarem esse mundo da produtividade acadêmica (
sic).
Parece não ter a menor importância o fato de estarem construindo suas carreiras rolando por sobre os cadáveres de indefesos seres sencientes.
Isso coincide, lamentavelmente, com a crítica de Milton Santos à “universidade de resultados”, consequência de comportamentos pragmáticos e raciocínios técnicos que atropelam os esforços de entendimento abrangente da realidade.
No caso especificamente da vivissecção, aceitamos tudo isso porque somos especistas.
Não levamos a sério o sofrimento dos animais.
ANDA – Você considera que a criação de “comissões de ética no uso de animais”, no que tange ao ensino ou à pesquisa científica, poderá salvaguardar alguns interesses dos animais?
Paula Brügger – Como ex-membro de uma das primeiras comissões desse tipo no país, posso afirmar que tais fóruns de deliberação são ineficientes porque são formados predominantemente por vivisseccionistas e, por conta disso, se tornam tendenciosos.
Vivenciei ao longo do meu mandato situações desconcertantes como: pesquisadores que desconheciam os métodos substitutivos ao uso de animais, bem como os avanços científicos em suas áreas (em mais de trinta anos de pesquisa com modelos animais); protocolos que buscavam renovação com base em critérios produtivistas como publicações, dissertações e teses, ou seja, com base em seu valor instrumental e não no valor intrínseco (que seria o avanço científico em si); e protocolos que eram aprovados porque alguns membros da comissão alegavam não ter competência para questionar seus colegas.
Com isso, durante o período em que participei da comissão, apenas uns poucos protocolos foram reprovados com base na total inobservância de critérios mínimos, tanto científicos, quanto éticos.
Eram simples “experimentações” que alguns colegas mal acostumados vinham praticando há décadas, sem que houvesse qualquer questionamento acerca delas.
Mesmo assim, ouvi dizer que algumas dessas “pesquisas” acabaram acontecendo por causa do hiato entre o início do experimento e a negativa por parte da comissão, às vezes demorada.
Tivemos, contudo, um saldo positivo: um colega que trabalhava com animais deixou de fazê-lo.
Outros avanços que poderiam ser mencionados – como um maior empenho na clareza dos objetivos e nos critérios científicos adotados em diferentes protocolos de pesquisa – devem ser vistos com cautela.
Como a aprovação de protocolos por parte dessas comissões é uma condição
sine qua non para que um trabalho seja publicado em revistas e periódicos de prestígio, a motivação para aprimorar um protocolo pode ter pouco a ver com valor intrínseco da pesquisa, no sentido lato de avanço da ciência.
O fato é que a posição dos vivisseccionistas é bastante confortável, já que eles não têm que se encarregar, verdadeiramente, do ônus da prova de que é preciso aniquilar tantas vidas.
Essas comissões acabam, com isso, legitimando uma ciência especista, sob o manto de uma suposta avaliação ética.
Mesmo que todos os problemas citados não tivessem existido, ou que possam hoje ser minimizados, tais comissões não salvaguardariam os interesses dos animais porque seu fundamento não é abolicionista.
Aliás, mais correto é dizer que tais problemas existem precisamente porque os valores que fundamentam as comissões não refletem uma mudança paradigmática, mas, na melhor das hipóteses, uma visão bem-estarista ou reformista, como destaca Tom Regan.
A verdadeira mudança paradigmática não propõe “jaulas maiores”, mas “jaulas vazias” pois, ainda que os experimentos resultassem em dados úteis e confiáveis, não temos esse direito.
Não é absolutamente razoável rotular como “radicais”, ou “obscurantistas” movimentos que, baseados em dados científicos e reflexões fundamentadas na mais recente epistemologia, questionam a legitimidade da prática vivisseccionista.
Não se pode afirmar que não seja possível prescindir dos modelos animais porque não há investimento algum (nem em educação, nem em pesquisa) no uso de alternativas, sejam elas técnicas substitutivas ou alternativas no sentido lato (como bancos de dados clínicos, epidemiológicos e outras fontes de informação).
E isso acontece por diversas razões.
A principal delas é, mais uma vez, a falta de uma visão sistêmica na construção do conhecimento. Avanços significativos, especificamente no que toca aos fármacos, poderiam advir da adoção de novas técnicas e procedimentos, já existentes – que evitariam a etapa de testes com animais – e da ampliação da fase de estudos clínicos.
A observação sistemática dos efeitos colaterais de fármacos já existentes, inclusive os efeitos positivos que resultariam em novos valores de curas, também traria uma inestimável contribuição.
A inclusão em larga escala de antigos e novos métodos como os estudos
in vitro, epidemiologia, observação clínica, autópsias etc. – e as simulações por computador, química combinatória e modelagem matemática – permitiriam, também, mudar a forma dominante de se fazer pesquisa.
A epidemiologia, hoje, é grandemente facilitada pelo fato de que dados médicos podem ser acessados por computador, rastreando informações sobre milhares de pacientes em diversas instituições.
Nunca houve um período histórico com tantas possibilidades de unir novas tecnologias a práticas tradicionais.
Nunca houve uma condição tão favorável para acabar com a vivissecção, fazendo interagir os avanços nas ciências da vida (como a epigenética, por exemplo) com a tecnologia e as ferramentas de gestão do conhecimento.
Não podemos dizer que não vai dar certo algo que não foi tentado.
Seria como se alguém, ao “rés-do-chão”, olhasse para o alto de uma escadaria e dissesse: “não consigo subir”, sem que ao menos tentasse dar o primeiro passo.
Certa vez um colega vivissecionista criticou os defensores do abolicionismo animal alegando, entre outras coisas, falta de coerência entre seus praticantes.
Ele argumentou que, quando precisamos de um medicamento, damos “graças a Deus” de termos a chance de nos curarmos.
Sem entrar no mérito de o quanto nós, antivivisseccionistas, conseguimos manter nossa saúde mais às custas da prevenção, do que de intervenções, não é difícil imaginar uma situação análoga em que um abolicionista no século XIX fosse criticado por usar roupas de algodão colhido por escravos, como se essa fosse a única forma de produzir, colher e manufaturar tais produtos.
Poderíamos ir longe com este tema, mas vou ficando por aqui.
Quem desejar ler mais sobre o assunto poderá encontrar diversos textos muito esclarecedores na Internet, inclusive em língua portuguesa.
Encerro com uma frase meio poética, meio epistemológica: não sei se navegar é preciso, mas realizar experimentos em animais não é preciso.
http://www.anda.jor.br/28/05/2011/para-alem-da-vivisseccao-rumo-a-uma-etica-ecologica-e-anti-especista