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sábado, 11 de maio de 2013

ONG Vira Lata entrevistada pela Revista A – Ana Maria Braga

 

A VLVV foi entrevistada pela revista A – Ana Maria Braga, em “Ações Sociais”.

 
entrevista_A

A: Quando surgiu e onde fica a ONG?

ONG Vira Lata Vira Vida (VLVV):
A Ong VLVV surgiu em 2009 quando veio à tona a notícia de um abrigo particular com mais de 500 animais, que estavam morrendo de subnutrição severaem Piracicaba.
A família que recolheu durante anos esses animais enfrentou graves problemas financeiros e não conseguiu mantê-los.
A cidade se uniu para recuperá-los e com o apoio da imprensa foi realizada uma campanha em que conseguimos 23 toneladas de ração.
Com a ração garantida para um determinado tempo teríamos um fôlego para resolver outros problemas no local.
Um grupo de profissionais liberais que se conheceu no abrigo decidiu unir forças para recuperar a estrutura que estava em ruinas e a saúde em geral dos cães.
Com esses encontros semanais o grupo se fortaleceu, definiu metas e seis meses depois fundou a ONG Vira Lata Vira Vida.

A: Quem são os fundadores?

VLVV: A ONG foi fundada por profissionais de diversas áreas: advogados, médicos, professores universitários, empresários, comerciantes e outros, que sem experiência na área pet, mas com grande amor pelos animais, contratou veterinários com recursos próprios até criar uma instituição legal. Antes da fundação aceitávamos apenas doações em ração, medicamentos, produtos de limpeza, prestação de serviços, mas recursos financeiros somente depois da legalização.

A: Existe um abrigo? Como os animais chegam aí?

VLVV: Sim, o abrigo funciona numa área particular e foi mantida por abrigar um número muito alto de animais.
Hoje estamos com 380 cães, sendo que mais de 200 são idosos, especiais, portadores de patologias graves ou vitimas de maus tratos.
Temos um ambulatório no local e um centro cirúrgico com duas veterinárias clínicas contratadas.
Além delas, contamos com o apoio de duas veterinárias voluntárias especialistas em acupuntura e fisioterapia, um educador canino, que acompanha as adoções, e um adestrador que prepara os animais para cinoterapia.
Recebemos inúmeros pedidos de recolhimento e mantemos o critério de entrada de animais em risco.

A: Qual a maior dificuldade neste trabalho?

VLVV: A maior dificuldade é manter a alimentação.
São quase quatro toneladas de ração por mês.
Isso consome grande parte das doações.
Outra dificuldade é o trabalho de conscientização da população.
Muitas pessoas confundem um abrigo com um depósito de animais.
Solicitam a retirada imediata do animal abandonado da frente de sua residência sem considerar nossos limites e dificuldades.
Temos que manter a qualidade de vida desses animais.
Apenas o recolhimento levaria para dentro do abrigo os problemas das ruas.
Não trabalhamos com essa filosofia.
 Queremos dar atenção a cada um deles atendendo suas necessidades.
Ao adotar um cão, o interessado recebe uma visita prévia na residência para possíveis adequações do local, assina termos de compromisso que inclui a permissão para visitas pós-adoção.
Em contrapartida, a ONG entrega o animal castrado, vacinado, vermifugado, com plaquinha de identificação, laudo veterinário, carteirinha de vacinação, exame de sangue atualizado e se necessário, com limpeza dentária.
Todos os cuidados são necessários para garantir a qualidade da adoção.

A: E qual a maior alegria?

VLVV: Nossa maior alegria é vê-los em um novo lar, com um proprietário cuidadoso e uma nova vida pela frente.
Quando conseguimos adoção para um cão especial é motivo de alegria entre todos os voluntários. Estamos realizando palestras em escolas, empresas e instituições na cidade sempre levando um animal especial ou idoso para quebrar o preconceito das pessoas.
Organizamos um evento chamado “O Dia dos Loucos por Cachorro” em que levamos para uma praça apenas os cães especiais para interação com as pessoas.
É muito lindo ver as pessoas passeando, as crianças sentadas no chão brincando com eles.
Só assim conseguiremos formar novos cidadãos, conscientes e defensores dos direitos dos animais.


A: Como as pessoas podem ajudar?

VLVV: A ajuda financeira é muito importante porque nossas despesas vão além dos gastos com ração e medicamentos.
A manutenção do local e funcionários cria uma demanda financeira considerável.
Realizamos também castrações para terceiros a R$ 50,00 e atendimentos para animais de famílias de baixa renda.
Temos também um projeto com o Centro de Controle de Zoonose – CCZ local com mutirões de castração pelos bairros periféricos.
A ONG entra como parceira e temos gastos que hoje conseguimos agregar às doações.
Os voluntários são sempre bem-vindos.
Eles são a alma da instituição.
Eles podem atuar dentro do abrigo diretamente com os animais ou trabalhar em outras áreas de atuação da ONG como educação, imprensa, eventos, divulgação e outros.

A: Poderia falar sobre a adoção à distância?

VLVV: Temos um projeto de adoção à distância, em que o interessado entra em contato conosco, recebe um book por e-mail com as fotos de nossos cães disponíveis para adoção à distância. Definimos um valor e ela pode visitar seu “afilhado”, levar presentes, ir ao abrigo para dar banho, passear, brincar e ele é mantido no abrigo.
Dessa forma conseguimos custear tratamentos e exames, principalmente dos cães idosos.

A: Fique à vontade para acrescentar o que achar mais importante.

VLVV: Gostaria de enfatizar a importância de atuar na comunidade.
O problema do abandono é de toda sociedade, assim como a crueldade contra os animais.
Se não trabalharmos para formar cidadãos conscientes, não conseguiremos ter resultados.
A ONG cuida diretamente desses 380 cães, mas trabalha para que outros, que talvez nunca venhamos a conhecer, sejam também favorecidos pelas nossas ações.

http://www.viralataviravida.org.br

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Cemitério Parque dos Animais em Piracicaba/ sp

cemiterio_animal

Por Fernando Galvão
O primeiro cemitério de animais segundo as normas da lei ambiental, está instalado em Piracicaba.
O capítulo V da lei 178/06, estabelece normas técnicas para instalação e funcionamento de serviços de destinação final de corpos de animais. (veja a lei)

Uma das idealizadoras da primeira lei sobre o assunto é Myriam Suely Vendemiatti, que é proprietária do Cemitério Parque dos Animais, localizado no bairro Pau Queimado.
Myriam conta que desde criança foi ligada ao mundo animal e um fato marcante em sua vida foi ver carcaças de animais descendo pelo rio quando ia pescar com seu pai.

“Era uma cena absurda, não conseguia entender porque aqueles bichos estavam ali, fui crescendo e me aprofundando no assunto.
Hoje sou louca por animais”, disse.
A idéia de criar um local adequado para o destino final dos animais surgiu em 1998.
Ela fala da dificuldade de tornar o local conhecido e da resistência da população em enterrar seus animais achando que tal atitude é muito caro.

“Um cemitério para ficar conhecido demora cerca de 15 anos, muita gente acha que é caro, mas temos preços acessíveis”, afirmou.
Desde outubro de 1998 o cemitério está em funcionamento, e em 12 anos mais de 13 mil animais, de toda a região, foram enterrados no local.
Ao longo deste período muitos sepultamentos foram marcantes, Myriam se emociona ao lembrar da dedicação e carinho que os proprietários tem pelo seu animal de estimação.
“Foram diversos casos marcantes, todos que vem aqui se tornam não só clientes, como amigos”, diz.

Casos:
Nick:
O cachorro policial que morreu cumprindo o seu dever foi um destes casos marcantes.
Nick tinha seis anos, quando foi atropelado por bandidos, no dia no sepultamento a emoção dos policiais militares foi grande.
“Dez dias antes ele estava aqui em um evento, era um cachorro muito inteligente e querido por todos” lembra Myriam.


 
 


Tronco:

Um rottweiler campeão!
Assim era definido o cachorro do adestrador Humberto.
O profissional realizou diversos trabalhos em parceria com o canil municipal e até hoje se emociona ao lembrar do seu parceiro.


 

Charlie:

O gato, de Chicago, veio morar no Brasil com o dono, faleceu e até hoje o seu proprietário, que retornou aos E.U.A liga pedindo para que seja colocado flores em seu tumulo.




Naomi:

A gata persa foi, por diversos anos, “pet-propaganda” de uma empresa de perfumaria na cidade.
Sua dona está sempre visitando e levando flores ao local.


 

O cemitério:

É divido em várias partes de acordo com o tamanho e espécie animal.
Em covas individuais os animais são divididos pelo tamanho.
Existem também as covas comunitárias populares e as covas comunitárias exclusivas.
A primeira com cerca de 500 animais e a segunda com 5 animais por cova.
O local também tem reservado um espaço só para gatos e animais exóticos, entre eles Ramisters, passarinhos, tartarugas e papagaios.
A proprietária diz que todos os sepultamentos são feitos de acordo com a lei e documentados.
Os proprietários levam consigo um documento, denominado “Registro de Sepultamento”.


 



Cantinho do Beija-flor:

Em viagem pela Europa, Myriam visitou diversos cemitérios de animais e muitas idéias foram implantadas.
O cantinho do Beija flor é uma maneira de dar conforto aos visitantes que vão ver seus animais e por ventura tragam outros bichos.
“Muita gente vem aqui e trás seus cachorros, este cantinho serve para eles ficarem à vontade, podem fazer cocô e xixi e é muito bonito, pois só tem plantas que os Beija-flores gostam, o proprietária também pode sentar, ler um livro e relaxar” , disse.



Doação de cães:

Alem do cemitério, Myriam possui diversos animais para serem doados, mas para adotar a pessoa precisa ir até o local e passar por uma entrevista.
“Não dôo sem antes conhecer a pessoas, quero saber quem é, onde o animal vai ficar e se será bem tratado.
Para adotar é só entrar em contato pelo 3433-2887.
Todos os animais são vacinados, castrados e muito saudáveis.
Com cerca de 90 animais para adoção Myriam é ajudada por diversas pessoas que levam ração, remédios e etc.
Toda a ajuda é bem-vinda.




 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O cardápio enxuto de Ayres Britto, vegetariano há mais de 20 anos

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Por Carolina Brígido
Agência O Globo – sex, 31 de ago de 2012

BRASÍLIA -
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, não come carne, frango ou peixe há mais de 20 anos.
Apesar de ser vegetariano, não são todos os vegetais que entram em seu prato. Jiló, mandioca roxa e berinjela crua, por exemplo, não têm vez.
Na sessão de quinta-feira, ao votar pela condenação de cinco réus do mensalão, ele deixou clara sua restrição:
 
- É confrangidamente que nós magistrados aplicamos o direito penal e condenamos alguém, sobretudo à pena privativa de liberdade.
Gosto de jiló, gosto de mandioca roxa, gosto de berinjela crua.
Algo fica no céu da boca do magistrado que se vê na obrigação de condenar alguém - disse.
 
Nesta sexta-feira, numa demonstração de tolerância, passou rapidamente pela churrascaria Porcão de Brasília para dar um abraço em Cezar Peluso, colega do STF recém-aposentado que se despedia de seus assessores com um almoço no local.
 
Mesmo com as opções de saladas e verduras no cardápio do restaurante, Ayres Britto preferiu almoçar antes em casa e chegou ao evento por volta das 15h.
 
Normalmente, quando vai a um almoço ou jantar, o ministro se certifica dos pratos que serão servidos.
 
Quando não há nada que o satisfaça, forra o estômago antes de sair de casa.
No tribunal, seu lanche é ligeiramente diferente: se os colegas consomem presunto, ele se satisfaz com frutas, sucos e sanduíche de pão com queijo.
 
Além de comer pouco, cultiva o costume de mastigar muitas vezes antes de engolir.
 
A mudança nos hábitos alimentares ocorreu repentinamente.
Enquanto se balançava numa rede, o ministro teve uma revelação.
Veio à sua mente a seguinte frase: "Jamais inflija sofrimento a qualquer ser vivo".
Desde então, não consome mais qualquer tipo de carne.
A revelação não tem valor para réus do mensalão e seus eventuais sofrimentos com as condenações.
 
Ayres Britto acorda todos os dias antes do sol nascer para meditar.
Ainda pela manhã, faz caminhadas.
O ministro é adepto do Osho, um filósofo indiano que certa vez anotou:
"A alimentação não vegetariana é uma das causas básicas de toda a sociedade estar em uma luta praticamente contínua.
Ela o torna insensível, duro, como uma rocha, e cria raiva e violência em você, o que pode ser facilmente evitado".
Coincidência ou não, no tribunal o ministro é conhecido por seu dom de pacificar as brigas dos colegas na Corte.

Além de terminar o julgamento do mensalão antes de se aposentar, em novembro, o ministro tem outro desafio pela frente: tornar-se vegano, algo que ainda não conseguiu.
 
Os adeptos da prática ficam impedidos de comer qualquer tipo de alimento de origem animal, como leite e seus derivados e ovos.
 
Ele revelou recentemente estar empenhado para alcançar esse fim.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Acupuntura Veterinária - O que é e para que serve?



Estímulo de determinados pontos do corpo através da inserção de agulhas, aplicação de calor, massagens e técnicas de manipulação e eletroestimulação, ultra-som, injeção de substâncias nos pontos e do uso de raio laser

Por Dr. Marcio Bernstein













A Acupuntura é o principal método terapêutico da Medicina tradicional chinesa, que visa a restauração e a manutenção da saúde através do equilíbrio da energia vital.

O tratamento por Acupuntura vem sendo utilizado em animais e seres humanos há pelo menos 5 mil anos com sucesso e continua sendo o principal método terapêutico de pelo menos ¼ da população mundial.

A sessão de Acupuntura consiste no estímulo de determinados pontos do corpo através da inserção de agulhas, aplicação de calor, massagens e técnicas de manipulação e eletroestimulação, ultra-som, injeção de substâncias nos pontos e do uso de raio laser.

Como funciona a Acupuntura?

Meridianos são canis por onde circula a energia vital do organismo.

Tecidos e órgãos internos estão conectados à superfície da pele através desses meridianos.

Logo, a aplicação de agulhas ou outros estímulos a pontos nestes meridianos gera reações tanto em tecidos adjacentes quanto órgãos a distância.
Um animal saudável apresenta o fluxo de energia liberado nestes meridianos, nutrindo todos os órgãos e tecidos do organismo.

Quando há um bloqueio, obstrução, excesso ou deficiência de energia nos meridianos, o corpo fica propenso a problemas físicos, emocionais e de órgãos internos.

Através do correto diagnóstico sob o ponto de vista da Medicina tradicional chinesa, o acupunturista veterinário poderá equilibrar os meridianos afetados, influindo em órgãos internos, tecidos moles, parte emocional, etc.

Causando a liberação de endorfina, cortisol, relaxando a musculatura, melhorando o funcionamento tendíneo muscular e orgânico como um todo.

A Medicina chinesa pode ser associada à Homeopatia, que age de forma sinérgica acelerando o processo de recuperação do paciente.

Dr. Marcio Bernstein - Certified Veterinary Acupuncturist - I.V.A.S International Veterinary Acupuncture Society - www.renalvet.com.br


http://www.pequenoscaes.com.br/acupuntura_veterinaria.php

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O cão é o que ele come.

 

Dr Leonardo Lara

















Fonte de energia e saúde, a ração deve ser apropriada ao tamanho, idade e atividade diárias.
Com carências nutricionais diferentes das nossas, os cães necessitam de uma alimentação balanceada, especifica e de qualidade. Vale lembrar que a nutrição adequada age como uma importante medida preventiva, minimizando a ocorrência de distúrbios secundários, como obesidade, patologias ósseas, dentre outros problemas de saúde. Ao escolher o alimento que será a fonte de energia diária para o seu filhote, é importante oferecer uma ração apropriada ao tamanho, idade e atividades exercidas pelo cachorro.
Com a afirmação “o cão é o que ele come”, o medico veterinário, responsável técnico da Lupus Alimentos, Dr. Leonardo Boscoli Lara, abre a entrevista exclusiva concedida ao Anuário cães sobre a importância da ração como fonte de nutrição e saúde para as diferentes fases da vida de um cão.
Anuário cães – Quais os benefícios oferecidos pela ração à saúde do cão e por quê?
Dr. Lara – A grande verdade é que “o cão é o que ele come.”
Pelo alimento o cão obtém: energia, desde o mínimo para manutenção da vida até o equilíbrio para a vida plena e saudável; proteína e aminoácidos em equilíbrio para reconstrução e manutenção de células e tecidos, entre outras inúmeras funções; ácidos graxos, para síntese de membranas celulares, armazenamento de energia, síntese de hormônios reprodutivos e mediadores da inflamação, entre outras funções; carboidratos diversos para fornecimento de energia e dar características as fezes, manutenção de níveis de insulina e colesterol, entre outras funções; minerais para síntese óssea e enzimática, entre outras funções; vitaminas para suas inúmeras funções especificas. Todos os nutrientes do alimento devem estar em equilíbrio para a espécie, raça, sexo, fase fisiológica, ambiente, peso, grau de atividade física, enfim, todos os parâmetros em que o animal se encontra.
AC – A ração de qualidade contribui para um desenvolvimento saudável? De que forma?
Dr. Lara – São inúmeras as formas em que a alimentação de qualidade contribui para um desenvolvimento saudável de qualquer animal, incluindo o cão. Essas formas estão relacionadas ao controle de todas as funções metabólicas dos cães, por estar diretamente interligado às substancias que forem digeridas e absorvidas pelo intestino. Além deste controle metabólico, o alimento fornece energia e elementos para a construção dos tecidos animais. Alimentar com qualidade implica em não haver excessos, pois acúmulos de elementos ou substancias no organismo podem gerar doenças degenerativas e metabólicas. É exatamente a grande variação entre as exigências dos animais e a pequena diferença entre o fornecimento do mínimo de nutrientes exigidos e o cuidado para que não ocorra excessos em cada situação especifica que a nutrição se torna fascinante.
Nutrição sempre será encarada com equilíbrio.
AC – Cada raça possui necessidades especificas? Como a ração supre essas necessidades?
Dr. Lara – Sempre que pensamos em necessidades especificas, aparece logo em nossa mente que temos que aumentar o nível de algum ingrediente na dieta. Este pensamento está equivocado, a nutrição é o equilíbrio de nutrientes para aquele animal, daquela raça, naquela fase fisiológica, com aquele estado de saúde, naquele ambiente…
Os maiores erros estão no excesso de nutrientes, principalmente quando pensamos em aumentar a longevidade de cada uma das raças existentes, incluindo-se aí a suavização dos sintomas derivados de alterações genéticas e metabólicas especificas de cada raça, pode ocorrer uma alteração metabólica, levando a uma maior ou menor necessidade de algum nutriente ou, até mesmo, às predisposições a doenças não infecciosas como gota, displasia coxo femoral, aterosclerose, entre outras. Em todos esses casos a nutrição adequada pode prevenir ou amenizar o quadro, assim como a nutrição inadequada pode agravar enormemente a situação. O cão com o metabolismo modificado tenta suprir necessidades ou se privar de algum nutriente em excesso com as mudanças no seu padrão de alimentação. Pode ingerir mais ou menos alimentos, pode rejeitar alimentos mais gordurosos, pode recusar a ração habitual e procurar alimentos bem diferentes do que se esta habituado, entre outros desvios comportamentais. Tudo depende de quais vias metabólicas estão ativas ou inativas em cada raça. Podemos citar como exemplo a raça dálmata que possui uma enzima do ciclo do ácido úrico pouco ativa, predispondo ao aparecimento da gota úrica. Dessa maneira apresenta extrema dificuldade em digerir produtos ricos em purinas e pirimidinas e acaba por procurar alimentos com menores teores de proteínas em geral. Na verdade, esse cão precisa realmente de menos purinas e pirimidinas, pois são as proteínas que mais produzem metabólitos excretados do organismo via ciclo do ácido úrico e podem acumular esta substancia na circulação formando cristais nas articulações causando a doença gota úrica. Portanto, um alimento completo e balanceado para cães da raça dálmata não pode conter matérias-primas ricas em purinas e pirimidinas como a farinha de vísceras, por exemplo. Além disso, deve conter um perfil de aminoácidos extremamente especifico, assim como deve ter uma relação entre proteína e energia metabolizável otimizada para esta característica, entre outras especificidades de outros nutrientes, principalmente em relação a alguns minerais.
Este é apenas um exemplo entre centenas. Afirmo se extremamente recomendável a escolha do alimento mais especifico possível para seu cão, quando o objetivo é a saúde, o bem estar e a longevidade.
AC – Por que as rações variam para cada fase da vida do cão?
Dr.Lara – Para responder essa pergunta, convido vocês a se lembrarem de nós, seres humanos. Vocês já notaram o tanto que um adolescente em fase de crescimento come? E a mulher nas ultimas semanas de gravidez ou quando esta amamentando? Já ouvi casos de mulheres sonâmbulas comerem até reboco de parede para suprir o cálcio que está sendo removido do organismo via leite. Nos animais, é a mesma coisa, ou pior até imaginem só… não são dois seios, mas sim, varias tetas produzindo leite para amamentar uma ninhada de 12 filhotes.
Somem o peso dos filhotes e comparem com o peso da mãe; a proporção é quase inacreditável. Imaginem também um cão adulto e ativo e comparem um cão idoso e se perguntem: qual precisa de mais energia na dieta? O alimento fornece o combustível e os componentes de manutenção da saúde dos organismos com necessidades variáveis em cada fase da vida. Assim o alimento deve fornecer exatamente a necessidade, sem faltas e sem excessos.
AC- Quais são as diferenças entre as rações indicadas para filhotes e cães adultos?
Dr. Lara – Vários exemplos podem ser mencionados, como o fato de os filhotes precisarem de maiores teores de energia por estarem construindo novos tecidos e pela própria atividade física alta; maiores teores de proteínas e diferente perfil de aminoácidos pela própria construção de tecidos como músculos, pele ou até mesmo a matriz orgânica do tecido ósseo; maiores teores de vitaminas pela alta atividade enzimática dos animais nesta fase; menor nível de fibras, para que estas não ocupem lugar de outros nutrientes no trato gastrointestinal. Os filhotes também precisam aproveitar melhor o alimento, portanto, necessitam de alimentos mais digestíveis.
AC- É importante trocar a ração quando o cão ficar idoso? Por quê? E em qual idade essa troca deve ocorrer?
Dr. Lara – É importante sim. O animal idoso possui necessidades nutricionais diferentes por uma diminuição em torno de 20% no metabolismo basal, diminuição da sensibilidade e sede (facilitando a desidratação), diminuição da termo regulação, diminuição da imunidade, diminuição da capacidade de olfato, paladar, visão e audição, formação de tártaro, perda de dentes, diminuição da motilidade intestinal, diminuição da absorção dos nutrientes, diminuição da função da maioria das glândulas e órgãos (principalmente rins e fígado), diminuição do tônus muscular, alterações no metabolismo ósseo predispondo a fraturas, diminuição a eficiência cardíaca, propensão a hipertensão entre outros. Assim, o cão idoso deve receber alimento diferenciado, onde, além de serem considerados todos os fatores descritos acima, o alimento ainda deve conter altos teores de antioxidante ativos no organismo para retardar os efeitos do envelhecimento. Comumente o proprietário do cão só percebe a fase idosa devido ao aparecimento de alguma situação de origem metabólica e, nestes casos, o novo alimento deve ser escolhido mais pela situação metabólica em que o cão idoso se encontra que pela idade do animal. É aconselhável aos proprietários de cães consultarem médicos veterinários competentes na indicação de alimentos, principalmente em caso de suspeitas de desordens metabólicas comuns em idade avançada.
O melhor ainda seria o acompanhamento destes profissionais desde a aquisição do animal.
AC – Hoje em dia encontramos rações para diferentes raças. Quais existem atualmente?
Dr. Lara – Foi mencionado sobre necessidades nutricionais diferentes para cada raça e, sinceramente, não sei afirmar ao certo quantos e quais alimentos balanceados para cada raça realmente existem. Ainda não possuímos as necessidades nutricionais de cada raça normalizada por nenhuma instituição no mundo. Somente para se situarem, seguem alguns exemplos de grandes instituições: Association of American Feed Control Official (AAFCO) que estabelece padrões de alimentação para pets nos Estados Unidos; o National Research Coucil (NRC) que coleta, avalia trabalhos na área e faz recomendações sobre requisitos nutricionais; Food na Drug Administration (FDA) que especifica ingredientes permitidos e processo de fabricação nos Estados Unidos e Canadá; United States Department of Agriculture (USDA) que regulariza rótulos e financia trabalho de pesquisa na área; Pet Food Institute (PFI) que é a associação comercial dos fabricantes de alimentos para animais de estimação nos Estados Unidos e Canadá; Canadian Veterinary Medical Association (CVMA) que administra voluntariamente certificados de produtos; Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil (MAPA) que regulariza rotulagens e fiscaliza a segurança alimentar dos alimentos para pets no Brasil e Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Companhia do Brasil (ANFAL PET). Nenhuma destas possuem informações suficientes para estabelecerem as exigências de todas as raças. O que temos hoje são estudos de casos de desordens metabólicas de diversas raças e alguns estudos mais aprofundados em nutrição, mas infelizmente, a maioria deles escondidos em empresas.
Dessa maneira, volto a perguntar para o leitor. Convido vocês a verificarem o beneficio real proposto pelo alimento e obterem a opiniões de outros proprietários sobre o efeito de cada marca em seu animal de estimação para terem suas próprias opiniões e experiências. Convido vocês a enviarem essas informações para Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Companhia do Brasil (ANFAL PET), que atualmente é a instituição idônea referencia na alimentação de cães no Brasil na certeza de que suas opiniões serão muito bem-vindas como padrões de satisfação dos consumidores. Quem sabe um dia, possamos utilizar essas informações no delineamento das exigências nutricionais de cada raça? Não custa tentar.
AC – Idade, peso e raça são os critérios avaliados durante a elaboração de uma ração?
Dr. Lara – Os alimentos completos e balanceados para cães são elaborados com os seguintes critérios:
  • Critérios intrínsecos ao cão: idade, sexo, raça, peso, fase fisiológica (crescimento, manutenção, gestação, lactação, numero de filhotes que está amamentando), grau de atividade do cão, características individuais como propensão a alergias, cálculos renais, câncer, doenças cardíacas, doenças articulares, entre outras situações metabólicas especificas.
  • Critérios intrínsecos às matérias-primas: Grau de insaturação de gorduras, presença e teores de antioxidantes em cada matéria-prima, aquecimento excessivo ou ineficaz da matéria-prima, presença de fatores antinutricionais, teor de açúcares redutores, teor de fitatos ou outros ligantes, presença de lactose ou outros compostos que podem causar intolerância, disponibilidade dos nutrientes característicos da matéria-prima, grau de oxidação, toxidez, palatabilidade, tolerância ao processamento, entre outros.
  • Critérios intrínsecos ao processamento: relação tempo/temperatura na disponibilidade de cada nutriente, produtividade do processo, eliminação efetiva de possíveis agentes patogênicos, grau de segurança alimentar do processamento, facilidade de formação de compostos indigestíveis ou de baixa palatabilidade durante o processo, entre outros.
  • Critérios intrínsecos ao alimento em si: digestibilidade, textura, crocância, tamanho da partícula, dureza, sabor, pH, cor, porcentagem máxima de partículas quebradas, densidade, nível de atividade de água, entre outros.
  • Critérios intrínsecos à embalagem utilizada: material da embalagem como papelão, PP, Bopp, ppt pet, pelbd, Eva, PVC ou suas laminações em multicamadas; grau de migração de oxigênio, luz ou umidade do exterior para o interior da embalagem; resistência à esterilização por autoclave; uso de atmosfera modificada; uso de embalagem a vácuo, presença ou não de furos na embalagem, entre outros.
  • Critérios intrínsecos à legislação especifica: Utilização de matérias-primas registradas, atendimento às exigências de rotulagem do produto, atendimento das exigências quanto à segurança do alimento, atendimento das exigências quanto à construção da fabrica e desenvolvimento das linhas de produção de alimentos, grau de certificação de qualidade da unidade fabril, como Boas Praticas de Fabricação, Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle, entre outros critérios.
  • Critérios intrínsecos ao ambiente: temperatura (como frio ou calor excessivo), tamanho e numero de cães por recinto, nível de esforço físico exigido pelo ambiente em que o cão vive umidade relativa do ar média, propensão a alergia, entre outros.
  • Critérios exigidos pelo dono do cão: preço, coloração do alimento, formato e tamanho das partículas integrantes do alimento, brilho dos pelos, tempo de prateleira (data de validade), volume e consistência das fezes, odor das fezes e urina, coloração da urina, palatabilidade, praticidade, hálito, surgimento e evolução de tártaro, redução de peso, longevidade, entre outros.
AC – Qual a diferença fundamental entre elas?
Dr. Lara – Em resumo, são duas diferenças fundamentais: relação entre proteína e energia do alimento que, por conseqüência, envolve um novo equilíbrio dos outros nutrientes da dieta e as matérias-primas utilizadas que vão conferir aceitabilidade, sabor, digestibilidade, odor e níveis de agentes promotores de saúde aos alimentos, entre outros.
AC- Como são elaboradas as rações denominadas para ambientes internos?
Dr. Lara – Existem vários critérios, mas podemos considerar as características das fezes dos cães como principal critério para o desenvolvimento de alimentos destinados aos cães que vivem em ambientes internos. O alimento deve ser extremamente digestível para obtermos o menor volume de fezes possível; deve conter tipos de fibras ou outros polissacarídeos de baixa digestibilidade em sua composição que absorvam o mínimo possível de água para reduzir a umidade das fezes, mantendo-as secas; deve conter ingredientes que reduzam o odor das fezes como extrato de Yucca Shidigera, alguns tipos de aluminosilicatos, alguns prebióticos e probióticos, entre outros. Assim sendo, o melhor alimento em teoria pode causar certo desconforto na defecação do animal, além de aumentar a possibilidade de infecções, devido ao pouco trânsito intestinal.
É um dos casos onde a praticidade do dono vale mais que o bem-estar do animal. Gostaria que se perguntassem, levando em conta somente o conforto sem se preocuparem com riscos à saúde. Vocês leitores preferem defecar fezes macias todos os dias ou fezes duras e secas algumas vezes por semana? Qual seria a resposta do seu cão para esta pergunta?
AC – O dono que escolhe a ração pelo preço sem considerar a qualidade pode comprometer a saúde do seu cão? Qual o efeito dessa escolha a médio e longo prazo?
Dr. Lara – Existe uma gama extremamente variável de alimentos para cães. O problema é que não é o cão que escolhe o alimento e sim o seu proprietário, e a maioria deles prefere economizar alguns reais por mês a manter seu cão saudável e ativo por um longo tempo. É comum ouvirmos frases do tipo, “chegou à hora dele mesmo”; ou “cachorro vive pouco, depois a gente arruma outro”;” Nossa essa ração pra cachorro é mais cara que comida de gente” e assim por diante. O alimento de má qualidade só existe no mercado porque existem compradores.
Conforme mencionado em outras respostas acima, são inúmeros os critérios observados para a confecção de cada alimento e logicamente que a cada escolha errada sempre acarretará em, no mínimo, diminuição do tempo de vida do animal, passando por perda do brilho dos pela obesidade, problemas articulares, problemas de crescimento, entre outros podendo chegar, até mesmo, em uma morte súbita do animal.
É sempre aconselhável, consultar profissionais competentes na escolha do alimento para seu cão.
AC – Como descobrir se está na hora de trocar a ração?
Dr. Lara – Normalmente, não se troca o alimento do cão (que apresente na mesma fase fisiológica) a não ser que o alimento não seja suficiente para o objetivo do proprietário. Os momentos onde realmente se faz necessário a troca do alimento são: a mudança de fase fisiológica do animal, as variações dos fatores intrínsecos ao ambiente ou variações em algum outro fator exigido pelo dono. Torna-se aconselhável o teste de diversas marcas no momento da escolha do alimento para aquela fase especifica. Outro conselho seria a mudança de alimento ser gradual para que o sistema digestivo se adapte ao novo alimento. Todos sabem o que ocorre quando alguém que não esta acostumado a ingerir leite gorduroso e ingere um “copão de leite ao pé da vaca”. Podemos evitar estes transtornos.
AC – Quais características demonstram que um cão não está saudável, como pelos ralos e sem brilho, etc? Nesse momento trocar a ração pode ser uma boa opção?
Dr. Lara – Por incrível que pareça, a característica relacionada à alimentação mais perigosa para a saúde do cão é a obesidade e o mais incrível é que a grande parte dos proprietários prefere cães obesos. No momento do diagnostico de sobrepeso deve ser efetuada, primeiramente, a mudança no manejo nutricional, ou seja, fornecer uma quantidade de alimento diária menor. Essa diminuição não deve ser brusca. Uma dica pratica é pesar o cão constantemente e diminuir 5% do volume de alimento diário oferecido, mantendo este mesmo volume até a estabilização do peso do cão. Assim que o peso estiver estável, verificar se ainda está com peso acima do ideal; em caso de afirmativo reduzir mais 5% e assim sucessivamente até que seja atingido o peso ideal. Pode ser que tenhamos que trocar o alimento para um alimento de digestibilidade mais baixa nos casos onde o animal ainda fica com fome pela pequena quantidade em gramas ingerida, mas o manejo continua o mesmo.
Para facilitar o entendimento, podemos considerar um exemplo onde um cão obeso pesando 60 kg consome 500g por dia. O proprietário passara a fornecer 475g por dia para o animal e continuara pesando-o diariamente. Vamos supor que em dois meses o peso do animal se estabilize em 58 kg, mas mesmo assim o animal ainda esta obeso. O proprietário então passara a dar 451g por dia para este animal e continuará pesando-o até a estabilização. O procedimento irá se repetir sucessivamente até que o animal encontre seu peso ideal que, neste caso, pode ter sido de 45 kg atingindo em um ano sem, nenhum risco à saúde do animal.
Outras características que demonstram a falta de saúde do cão, são pelos fracos e sem brilhos, falta de vitalidade, aumento de secreções dos olhos e narinas, tremores, respiração ofegante, diarréia, vômito, perda de apetite, apatia, falta de coordenação motora, desvios de comportamento. Em todos os casos, um medico veterinário competente deve ser consultado e a mudança ou não do alimento que está sendo fornecido ao animal e o momento propício para a alteração, devem estar vinculados à opinião deste profissional.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cesar Millan sugere um SRD como pet para príncipe William

Em entrevista ao jornal Telegraph o especialista em comportamento canino incentiva o casal William e Kate a ter um cãozinho “vira-lata”

Cesar Millan apresenta há nove anos o programa Dog Whisperer, exibido no Brasil no canal a cabo Animal Planet - Reprodução/ Daily Telegraph
 
Cesar Millan apresenta há nove anos o programa Dog Whisperer, exibido no Brasil no canal a cabo Animal Planet
Crédito: Reprodução/ Daily Telegraph
 
Durante sua temporada em terras britânicas, o especialista em comportamento canino Cesar Millan aproveitou para abordar um tema muito importante: a adoção de animais abandonados.

Ele, que está gravando alguns episódios de seu programa, Dog Whisperer, contou em entrevista ao jornal Daily Telegraph que um cachorro SRD seria a companhia ideal para o casal William e Kate Middleton depois que subirem ao altar, em abril.

“Com certeza, um vira-lata.

Estava previsto que Obama (o presidente norte-americano Barack Obama) resgatasse um animal de um abrigo, mas no final das contas acabou optando por um de raça pura”, declarou Millan.

 “Eu sei que o príncipe William e Kate também optariam por uma raça pura, mas um vira-lata representa melhor o que o mundo está se tornando (uma mistura de raças).

Eles precisam mostrar que o respeito com os animais não tem nada a ver com a raça”.
O adestrador também aproveitou a ocasião para contar um pouco de como faz para reabilitar mesmo cães tão difíceis.

“O problema da maioria das pessoas é que elas perdem a calma, gritam e empurram seus animais”.

Para Millan, o segredo é ser calmo e mostrar segurança a respeito do que deseja do cachorro.
Criado em uma fazenda no México, onde era chamado de “menino-cachorro” devido à sua facilidade de lidar com os animais, Millan chegou aos Estados Unidos ilegalmente, nos anos 1990.

Logo conseguiu um emprego em um pet shop, até ser descoberto anos depois pela atriz Jada Pinkett, que futuramente se casaria com o ator Will Smith.

Desde então Millan é responsável pelo treinamento de cães de diversas celebridades, como Oprah Winfrey, Nicolas Cage e Vin Diesel.

O que é vegetarianismo?

Vegetarianismo é a corrente dietética que estipula a alimentação exclusivamente vegetal, com abstenção de todos os ingredientes de origem animal, mesmo aqueles que não resultaram diretamente na morte do animal.

Pessoas que consomem frango, peixes, ovos, leite, mel, gelatina, cochonilha ou outros produtos de origem animal não são genuinamente vegetarianas.
O vegetarianismo é, portanto, um sistema de alimentação.
Ele não necessariamente implica no reconhecimento dos direitos animais, podendo ser motivado por saúde, preferências pessoais, motivos religiosos e motivos ecológicos e sociais, entre outros.
Veganos são necessariamente vegetarianos, mas vegetarianos não são necessariamente veganos.
A diferença encontra-se precisamente na motivação ideológica e no modo de vida.
Vegetarianos não necessariamente boicotam cosméticos testados em animais, deixam de utilizar couro ou opõem-se ao uso de animais em outras formas de exploração.


Confusão em relação aos termos
Há uma confusão em relação aos termos “vegetariano” e “vegetarianismo”.
Muitas pessoas sem conhecimento aprofundado sobre o assunto associam-nos a correntes dietéticas como o naturalismo e a macrobiótica; ou consideram que vegetarianos são aqueles que se abstém do consumo da carne vermelha, mas que podem consumir a carne branca, ovos, leite, mel, etc.
Uma outra definição errônea de “vegetarianismo” é aquela que cria uma classificação artificial que permite estratificar vegetarianos de acordo com os alimentos de origem animal que eles consomem ou deixam de consumir.
Vegetarianos são definidos, assim, como pessoas que apenas não comem carnes de animal algum, podendo porém consumir leite (lacto-vegetarianos), ovos (ovo-vegetarianos), ovos e leite (ovo-lacto vegetarianos), mel (api-vegetarianos), além dos vegetarianos estritos que são tratados como “veganos”.

Nenhuma dessas classificações tem razão de ser.

“Vegetarianismo” implica em abstenção e qualquer pessoa que não se abstenha não poderá ser chamada vegetariana.

Há, no entanto, um entendimento de que determinadas práticas podem levar uma pessoa a adoção do vegetarianismo.

Praticamente todos os vegetarianos que não nasceram nessa condição passaram por um período maior ou menor em que abstiveram-se de determinados produtos de origem animal enquanto continuaram o consumo de outros.

Podemos considerar que uma pessoa que não consuma carne vermelha com frequência, mas esteja pensando no futuro abandonar também o consumo de frangos, peixes, ovos e leite; ou uma pessoa que já não consuma carne de nenhum tipo, mas ainda consuma ovos e leite, e que planeje em um futuro próximo tornar-se de fato vegetariana seja uma protovegetariana.

No entanto, o emprego desse termo “protovegetariano” deve ser realizado com cautela, pois em muitos casos a pessoa pode abandonar o consumo de carne vermelha mas aumentar em muito seu consumo de peixe; ou pode compensar o não consumo de carne de nenhum tipo com a adição de maior quantidade de laticínios à sua dieta.

Há “ovo-lacto” convictos que sequer consideram a possibilidade de se tornarem vegetarianos.
Nesse caso não há uma tendência ao vegetarianismo, pelo contrário.

Entende-se que o que se convencionou chamar de “ovo-lacto vegetarianismo” seja uma importante fase de transição em direção ao vegetarianismo, mas se a intenção do praticante não for a adoção do vegetarianismo a adoção dessa prática dietética não tem qualquer razão de ser.

Ela não é compatível com os direitos animais, nem com um melhor estado de saúde, nem com a preservação de áreas naturais, nem com a melhor distribuição de alimentos.
 Trata-se apenas de uma preferência pessoal, sem qualquer ideologia associada.

O vegetarianismo pode estar associado ou não a outras práticas dietéticas.
Assim, existem vegetarianos que são macrobióticos, vegetarianos que são crudivoristas, vegetarianos naturalistas, frutarianos.

Embora em nível individual essas práticas possam se associar, elas não estão atreladas. Há, por exemplo, macrobióticos, naturalistas e crudivoristas que consomem produtos de origem animal e vegetarianos que consomem alimentos processados.

De que se alimentam os vegetarianos?
Vegetarianos alimentam-se exclusivamente de alimentos de origem vegetal: Cereais, grãos, verduras, legumes, frutas, sementes e nozes.

Embora cogumelos e leveduras não sejam taxonomicamente vegetais, eles são biológica e popularmente associados a vegetais e podem ser consumidos por vegetarianos.

A dieta vegetariana é adequada para satisfazer as necessidades humanas de proteínas, lipídeos, carboidratos, minerais e para a grande maioria das vitaminas.

O vegetarianismo pode, igualmente, ser praticado por pessoas em todas as fases de sua vida: Crianças, adultos, idosos, homens, mulheres, gestantes, atletas.

Porém, como na dieta convencional, os maus hábitos podem levar a carências ou excessos nutricionais.
Por esse motivo faz-se necessário o consumo de alimentos em quantidade e qualidade adequados.

Vantagens da adoção do vegetarianismo
A principal motivação que leva à adoção do vegetarianismo é a ética.
O vegetarianismo ético é uma forma de se alinhar comportamento alimentar com crenças e valores relativos aos direitos dos animais.

Embora essa seja a motivação, muitos são os benefícios advindos da adoção dessa corrente dietética. Muitos estudos mostram que o vegetarianismo está relacionado a uma melhor qualidade de vida e longevidade.

Igualmente, vegetarianos padecem menos de diabetes, arteriosclerose, reumatismo, hipertensão, osteoporose, anemias, doenças cardíacas, doenças renais, doenças respiratórias, derrame, esclerose múltipla, alguns tipos de cânceres e obesidade, as principais causas de morte e incapacidade atualmente no mundo.

A abstenção do consumo de produtos de origem animal teria efeitos positivos também para o meio ambiente, reduzindo a pressão pela abertura de novas pastagens e campos para cultivo de alimento para animais, reduzindo o consumo de água, erosão do solo e produção de metano e outros poluentes.

Além disso, uma população vivendo de dietas vegetarianas possibilitaria o sustento de maior quantidade de pessoas em menor quantidade de terra, melhorando a distribuição de alimentos e reduzindo o problema da fome e da má distribuição de recursos.

*Sérgio Greif – sergio_greif@yahoo.com

Biólogo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutrição com tese em nutrição vegetariana pela mesma universidade, docente da MBA em Gestão Ambiental da Universidade de São Caetano do Sul, ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas ações civis publicas e audiências públicas em defesa dos direitos animais.
Co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável”, além de diversos artigos e ensaios referentes à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, à bioética, à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação e aos impactos da pecuária ao meio ambiente, entre outros temas.
Realiza palestras nesse mesmo tema. Membro fundador da Sociedade Vegana.


Fonte: Olhar Animal

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Para além da vivissecção: rumo a uma ética ecológica e antiespecista


Paula Brügger é professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina, em que ministra as disciplinas “Biosfera, sustentabilidade e processos produtivos”, “Meio Ambiente e desenvolvimento” e “Gestão da sustentabilidade na sociedade do conhecimento”.

É graduada em Ciências Biológicas com especialização em Hidroecologia, Mestra em Educação e Doutora em Ciências Humanas – “Sociedade e Meio Ambiente”.

Atua na defesa dos animais e do meio ambiente e auxiliou diversas vezes o Ministério Público Federal na luta contra projetos de pseudodesenvolvimento que promovem exclusão social e a destruição da natureza.

É autora dos livros Educação ou adestramento ambiental?, em 3ª edição, e Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas.

Coordena o projeto de educação ambiental “Amigo Animal”, oferecido para as escolas da rede municipal como tema transversal.

Atua principalmente nos seguintes temas: educação ambiental; interdisciplinaridade e paradigmas de ciência; desenvolvimento sustentável; relação dos seres humanos com os outros animais como relação sociedade-natureza.

Nesta entrevista concedida com exclusividade à ANDA, Paula destaca o quanto é inconcebível e desnecessária a experimentação de animais em laboratórios.

 

ANDA – Como profissional da área de Ciências Biológicas, que razões te levam a ser contra a experimentação com animais?


Paula Brügger – Como bióloga e, por que não dizer, como cientista, sou contra a “experimentação animal” por duas razões básicas.
A primeira é que tais experimentos são injustificáveis sob o ponto de vista ético por submeterem seres sensíveis e conscientes a diversas categorias de danos físicos e psicológicos e à morte.
Como se isso não fosse suficiente – e aqui vem a segunda razão – a chamada “experimentação animal” é uma prática que falha em alguns critérios essenciais para que uma atividade seja considerada verdadeiramente científica.

Autores como Jean e Ray Greek e Hugh LaFollette e Niall Shanks, entre outros, destacam a predictabilidade (capacidade de prever um fato ou fenômeno) como um dos principais critérios em que os testes com animais falham: os dados provenientes dos “testes” não são confiáveis, não são absolutamente seguros para predizer o resultado do uso de determinada droga, ou as reações a procedimentos variados, como os cirúrgicos.

Em meu livro Amigo Animal, de 2004, tratei especificamente desse segundo aspecto, ou razão, para me opor aos testes com animais, tomando como base uma série de considerações de natureza epistemológica (isto é, que dizem respeito à forma como o conhecimento é construído) sintetizadas pelo físico Fritjof Capra.
Em seu livro A Teia da Vida, Capra resume e reelabora diversas premissas que fundamentam as visões de mundo sistêmicas que são essenciais para a compreensão da complexidade que envolve os fenômenos tanto naturais quanto sociais.
Ao reler seu trabalho, logo percebi a importância desse conjunto de premissas para explicar as razões subjacentes à falibilidade dos modelos experimentais com animais não-humanos.
Foi assim que nasceu em meu livro o capítulo intitulado “modelos animais”.
Minha convicção no que tange a essa questão ficou ainda mais forte quando li o segundo livro do casal Jean e Ray Greek (Specious Science), citados antes.

A argumentação deles – calcada sobretudo na Teoria da Evolução e na Genética – complementava e contextualizava admiravelmente bem o que eu havia “pincelado” antes, no Amigo Animal, com base em seu primeiro livro e nas premissas das visões sistêmicas e suas redes autopoiéticas (ou seja, que se autoproduzem/gerenciam).
É interessante que, já na graduação, eu sentia uma profunda rejeição por quaisquer formas de manipulação de vidas animais e mesmo de vegetais, em alguns casos.
No que diz respeito aos animais, o que sentia era uma aversão literalmente visceral.
Naquele tempo ainda não havia a possibilidade de recorrer à escusa de consciência, garantida hoje pela Constituição Federal de 1988.
Discussões sobre a cientificidade dos testes com animais, menos ainda.
Hoje vejo com clareza que minha “intuição” – no sentido de instrução, conhecimento, ou conjunto de valores que vêm de dentro – estava de acordo com o que preconiza a epistemologia mais recente: trata-se de uma prática abominável sob o ponto de vista moral e espúria no âmbito científico.
Razão e emoção, aqui, caminham lado a lado.


ANDA – Os defensores da experimentação animal afirmam que a criação de fármacos e, consequentemente, a cura de doenças, depende diretamente dessa prática.
Você concorda com isso?


Paula Brügger – Eu começaria citando o elevado índice de efeitos colaterais nocivos decorrentes do uso de fármacos legalmente vendidos.
Diversos autores, como Kathy Archibald, citam longas listas de medicamentos retirados do mercado por conta dos seus gravíssimos efeitos colaterais e destacam que tais listas representam uma pequena parte da calamidade total, já que muitos problemas sequer foram relatados.
Isso acontece por causa dos argumentos expostos na pergunta anterior: os dados provenientes de testes com animais não-humanos não são confiáveis.

O modelo animal é falho porque existem diferenças, entre nós e eles, na anatomia, na fisiologia, nas interações ambientais, etc, que resultam na não-correspondência na absorção, distribuição e metabolismo de substâncias.
Ademais, as condições de laboratório são mais controladas do que na vida humana e as doses administradas a eles podem ser muito maiores do que as prescritas aos humanos, em termos de peso corporal.
As vias de inoculação de diferentes substâncias – se oral, anal, peritonial, vaginal etc. – exercem também uma grande influência sobre os resultados dos testes.

Animais de laboratório são, ainda, em geral, menores do que os humanos e com isso têm um metabolismo muito mais intenso.
Esse fato pode impedir que os efeitos tóxicos apareçam, pois as toxinas são eliminadas mais rapidamente.
Tudo isso afeta a absorção, a farmacocinética e o metabolismo de compostos, ou causa reações inesperadas com relação a um composto.
Embora haja muitas características comuns entre nós e os outros animais, diferenças ínfimas podem levar a erros grosseiros porque tais diferenças formam potencialmente novos universos, novos “elos” que vão “tecendo” novas redes e conexões (afetando, por exemplo, vias metabólicas).
Somos todos formados pelas mesmas unidades de DNA (A, T, C, G) que são juntadas no mesmo processo.
Mas, enquanto o material genético é o mesmo, a composição, os arranjos são diferentes.
Aqui é impossível não lembrar de uma passagem do filme Ponto de Mutação, de Capra, na qual se diz que as “relações formam tanto a matéria, quanto a música”.

Basta pensar que a partir de apenas 7 notas é possível compor todos os tipos de músicas existentes - de sinfonias a melodias de origem folclórica - e que, basicamente, a partir dos infinitos arranjos, isto é, das relações entre 4 bases nitrogenadas, a vida construiu tudo o que existe em termos de biodiversidade.
A partir desse olhar sistêmico sobre a natureza, fica evidente o caráter limitado dos modelos animais, que se baseiam em premissas essencialmente mecanicistas.
Por exemplo, uma mudança em um único aminoácido é responsável pela diferença entre a molécula de hemoglobina de pessoas com sangue normal e a molécula de hemoglobina em pacientes com anemia falciforme.

Da mesma forma, uma única diferença em um aminoácido, entre primatas humanos e não humanos, faz com que o HIV não se acople ao mesmo receptor celular em primatas não humanos.
Qualquer diferença, por menor que seja, pode deflagrar uma nova relação e formar uma nova rede. Essa é a dialética da natureza.
Os defensores dos modelos animais insistem em afirmar que muitos medicamentos, procedimentos cirúrgicos e terapias dependeram da experimentação animal, ou foram descobertos usando animais como modelos.
Mas, em geral, não aceitam discutir o baixo índice de sucesso dessa forma de construir conhecimento.

Os Greek destacam que, de acordo com a organização Pharmaceutical Research and Manufacturers of America, apenas 1% dos novos medicamentos testados em laboratórios vai para o estágio clínico (em que são testados em voluntários humanos).
De acordo com a fonte, ou a área examinada, esse índice de sucesso pode aumentar até bastante, mas no cômputo geral a confiabilidade é sempre baixa.
Estamos, portanto, diante de um percentual de sucesso que não parece diferir de outras situações baseadas em meras tentativas, como os índices de acerto em cestas de basquete por parte de pessoas que não dominam tal esporte.

Se eu deixasse uma câmara ligada filmando minhas tentativas de fazer cestas e exibisse posteriormente apenas meus acertos, eu provavelmente convenceria as pessoas de que sou uma exímia jogadora.
Mas isso reflete a verdade?
Analogamente, é evidente que, com um volume tão grande de experimentos (estima-se que cem milhões de animais sejam mortos em experimentos a cada ano, mas esse número é provavelmente bem maior), alguns resultados possam ser aproveitados.
Porém, isso não reflete uma empreitada verdadeiramente científica.
A validação de modelos pode aumentar bastante o sucesso das pesquisas, contornando as suas “anomalias” (isso implica de qualquer jeito a morte massiva de animais), mas, no geral, os dados corretos permanecem fruto da coincidência de resultados entre o modelo e o “objeto” a modelar, ou de pistas fornecidas por outros campos de pesquisa (muitas vezes não creditadas).

Há outro aspecto muito importante: muitas vezes não são devidamente examinados os nexos causais entre os resultados de estudos com animais e o efetivo progresso da medicina.
A história das terapias contra a AIDS e o câncer, e de procedimentos como os transplantes, entre outras, está repleta de exemplos de como os estudos com animais foram inúteis e até submeteram os primeiros humanos à verdadeira condição de cobaias, pois os pressupostos (dados obtidos em animais) não podiam ser extrapolados para os humanos.
Assim como Kathy Archibald, citada antes, Neal Barnard e Stephen Kaufman listam uma longa série de drogas ou substâncias que apresentam efeitos totalmente diferentes em animais e seres humanos, alguns dos quais sérios e até fatais.
Foram os estudos epidemiológicos, observações clínicas e autópsias que mostraram tais efeitos devastadores.

O efeito carcinogênico do cigarro é um caso clássico: estudos clínicos, não pesquisas em animais, estabeleceram a ligação entre o tabagismo e diversos tipos de câncer (como de pulmão, boca, língua, laringe, fígado, etc), e doenças do coração, catarata, doenças respiratórias, doenças periodontais, e muitas outras.
É incrível que com todas essas evidências algumas companhias de tabaco ainda insistam nos testes com animais.
Não há coerência (ou consiliência), portanto, entre as descobertas dessas diferentes áreas de pesquisa. Jean Pierre Dupuy salienta que é a epidemiologia que nos ensina que os progressos da longevidade humana no Ocidente nos últimos 150 anos devem o essencial aos melhoramentos da higiene pública, alimentação, condições de alojamento, água potável, esgotos etc.
Isso não quer dizer que as armas que a medicina conseguiu aperfeiçoar não sejam eficazes, mas que temos que reconhecer seus limites.

É a epidemiologia que nos mostra também que temos hoje uma substituição das doenças infecciosas por doenças crônicas degenerativas.
Dupuy enfatiza ainda a importância de uma visão ecológica sobre a saúde humana, em contraposição às visões reducionistas dominantes.
Ele levanta questões muito interessantes tais como o fato de estarmos tratando problemas complexos de uma forma biologicizada, reduzindo respostas orgânicas saudáveis a situações intoleráveis de vida, ou de trabalho, à condição de doença.

Thomas McKeown também argumenta que a medicina moderna não é tão eficiente como a maioria das pessoas acredita.
Existe um falso conceito sobre a saúde humana.
Médicos, bioquímicos e a população, em geral, acreditam que o corpo é uma máquina que pode ser protegida das doenças basicamente através de intervenções físicas e químicas.
Essa abordagem, enraizada na ciência do século XVII, generalizou a indiferença com relação à influência dos determinantes primários da saúde humana: o meio ambiente e o comportamento pessoal (como uma melhor alimentação, ou a atividade física), e destacou o papel do tratamento médico.
Ele menciona que a queda na mortalidade de várias doenças contagiosas ocorreu muito antes da descoberta de tratamento médico, ou intervenções médicas efetivas, e assinala a importância de aquilatarmos o quanto somos responsáveis pela nossa própria saúde.
Trabalhos recentes, inclusive recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), corroboram essa visão mais sistêmica e ecológica.
Mas o modo de pensar fragmentado e reducionista ainda é muito comum dentro do meio acadêmico.
Basta examinar, por exemplo, a questão da saúde dos ossos.
Nós, veganos (e mulheres veganas ainda mais!), somos constantemente aterrorizados por médicos e nutricionistas, inclusive, com a possibilidade de sermos acometidos pela osteoporose, uma vez que não consumimos laticínios.
Mas o Dr. Eric Slywitch nos ensina que o cálcio é apenas um entre os 18 fatores nutricionais necessários para a saúde óssea.
E, quando pensamos que os laticínios são uma entre muitas fontes de cálcio, percebemos o quão improcedente é tal tipo de “terrorismo”.


ANDA – Experimentação animal e vivissecção significam a mesma coisa?


Paula Brügger – O termo vivissecção tem o significado literal de “cortar um corpo vivo”, mas também é usado para designar “a realização de operação ou estudo em animal vivo para observação de determinados fenômenos”.
Segundo o The Concise Oxford Dictionary of Current English, vivissecção significa “dissecação ou outros tratamentos dolorosos em seres vivos para propósitos de pesquisa científica”.
É verdade que existem estudos pouco invasivos, ou meramente comportamentais, que não se encaixariam bem no significado do termo “vivissecção”, se tomarmos a palavra ao pé da letra.
Eu sigo a tendência dominante de tratar os termos como sinônimos, conforme as definições anteriores, porque, na prática, não existem diferenças expressivas entre eles.
Ambos são materializações de uma racionalidade essencialmente instrumental, expressões do paradigma reducionista e mecanicista dentro do qual tudo no planeta Terra se “transforma” em recurso, em meio para atingir determinado objetivo.
Nada mais tem valor intrínseco.
E os animais não se constituem em uma exceção.


ANDA – Você já se referiu ao aspecto antiético da prática vivissecionista, no que tange aos animais de forma direta.
Existe alguma outra faceta antiética ligada à experimentação animal?


Paula Brügger – Fora o aspecto mais imediato e evidente de causar sofrimento e morte a seres sencientes – isto, é aqueles capazes de sentir dor e emoções como alegria, ódio, ou medo – o caráter antiético da prática vivissecionista encontra-se relacionado mais uma vez a questões epistemológicas. É interessante destacar que o filósofo alemão Herbert Marcuse nos ensina que ética é, em si, epistemologia e vice-versa.
Isso fica claro quando retomamos a questão da baixa confiabilidade dos modelos animais.
Devemos reconhecer que nenhum método – seja ele baseado em animais, seres humanos, ou tubos de ensaio – é capaz de prever as reações dos pacientes com 100% de precisão.
As reações diferem de acordo com o sexo, a idade, o grupo étnico e mesmo entre membros da mesma família.
Somos todos diferentes, bioquimicamente únicos, embora não tão diferentes uns dos outros quanto somos dos animais não humanos, é claro.

Dessa forma, apesar de todos os genomas humanos terem mais de 99,9% de identidade, a pequena proporção de 0,1% de diferença pode produzir uns três milhões de polimorfismos, ressaltam os Greek (vejam que, mais uma vez, a prática encontra respaldo na teoria sistêmica).
Muitos deles não têm efeito, mas os que têm impacto na expressão e função de proteínas podem afetar o funcionamento de drogas.
Alguns exemplos estão relacionados ao metabolismo do colesterol, à manifestação da asma e aos transmissores de serotonina. Tudo isso só reforça a ideia de que usar animais em estudos é ineficaz e antiético, pois nenhuma dessas particularidades pode ser descoberta nos modelos animais.

Archibald, citada antes, diz que a massiva ênfase na confiabilidade dos dados provenientes da experimentação animal permite que as companhias farmacêuticas evitem conduzir etapas clínicas mais criteriosas, mais representativas, com mais pessoas e durante mais tempo.
E que os testes com animais são feitos por razões legais e não científicas, visto que isso protege as empresas contra processos decorrentes de efeitos colaterais prejudiciais ou letais.
Mais grave ainda é que muitos compostos químicos cujos efeitos nocivos encontram-se fartamente documentados – em estudos epidemiológicos, clínicos etc. – podem ser “inocentados” via experimentação animal.
Isso acontece porque os testes geram dados contraditórios e inconclusivos, o que, em tese, é muito bom para a indústria.

É como enfatiza o Dr. Neal Barnard, presidente do “Comitê Médico por uma Medicina Responsável”: usando diferentes espécies em diferentes projetos, os cientistas podem encontrar evidências que sustentam qualquer teoria.
No caso do cigarro, por exemplo, tanto as provas de que o tabaco é cancerígeno, quanto as que asseguram a sua inocência, usaram animais como base.
Há inúmeras outras facetas antiéticas ligadas à experimentação animal, tais como os gigantescos interesses econômicos envolvidos na criação e venda de animais, aparelhos de contenção, gaiolas, e os próprios fármacos.
O setor farmacêutico é um setor produtivo que, como qualquer outro em nossa sociedade, precisa constantemente colocar novas drogas no mercado a fim de assegurar lucros crescentes.
E isso, independentemente de as novas drogas serem mais eficazes ou seguras do que aquelas já existentes no mercado (sic).

Não vou explorar aqui esse aspecto, mas recomendo que o leitor procure na Internet, por exemplo, os depoimentos da Dra. Marcia Angell, autora do livro A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos. Para encerrar esta pergunta, creio que é esclarecedor trazer à discussão alguns dos questionamentos de Paul Thagard quanto à distinção entre ciência e pseudociência (falsa ciência).
Ele recomenda examinar, entre outras questões, se a comunidade de praticantes está tentando explicar as anomalias da teoria e se as consideram importantes; se estão comparando o sucesso da teoria com o sucesso de teorias alternativas/concorrentes; e se a comunidade científica procura provar ou reprovar a teoria.
No âmbito da experimentação animal, nenhuma dessas perguntas, aparentemente, se faz presente: elas são desafios de natureza ética e epistemológica que representam ameaças à continuidade da experimentação animal e ao mundo produtivo ao qual ela serve.


ANDA – Quais as dificuldades de abordar, no meio científico, questões de cunho ético que dizem respeito à nossa relação com os animais não-humanos?



Paula Brügger – Esta pergunta é muito boa porque nos remete ao universo muito mais amplo de pensamento e ação mencionado antes – à “lente” através da qual conhecemos a natureza e seus fenômenos – que prima por uma racionalidade mecanicista, instrumental.
Recorro mais uma vez a Marcuse, que nos ensina que nossa forma dominante de construir conhecimento é baseada na quantificação da natureza.
Mas a tradução da natureza em termos de estruturas matemáticas (por exemplo, a coleção de dados como pesos, alturas, percentuais, informações estatísticas, quantificação de danos ambientais etc.) criou a ilusão da existência de uma realidade autônoma, independente do observador humano.
Isso acabou separando a Ciência da Ética e resultou na dificuldade de vermos nossos “objetos” de estudo em termos de causas finais (isto é, dotados de valor intrínseco).
Essa é a base da visão da natureza como uma grande fábrica, como uma parte produtiva do todo.
E dos animais (mesmo os humanos) como recursos ou meios.
Ao estabelecer a quantificação da natureza como um pré-requisito para conhecê-la, a ciência foi também paulatinamente destituindo a importância dos nossos sentidos como forma confiável de conhecer o mundo.
O conhecimento passa então a ser construído, cada vez mais, por meio do domínio ou mesmo da libertação dos sentidos.

Não é difícil aquilatar o quanto tudo isso foi especialmente nefasto no caso da nossa relação com os animais.
O conceito de especismo é, com isso, particularmente relevante para a compreensão de nossa relação com os outros animais, uma vez que contextualiza e detalha um aspecto do antropocentrismo como traço cultural que domina nosso olhar sobre a natureza.
O especismo encontra-se na base de nosso pensamento.
Estamos imersos dentro dessa “bolha” ou “lente” paradigmática que – como antolhos - nos impede de ver o que é evidente, o que os sentidos nos mostram o tempo todo: que os animais não são autômatos incapazes de pensar; que eles têm linguagem; que são sencientes; que gerenciam sua saúde e seu bem-estar; que têm uma expectativa sobre o futuro (e lembranças do passado); e que, em alguns casos, têm o que podemos chamar de uma protocultura.

Tudo isso deveria lhes conferir direitos, sendo o direito à vida o mais evidente.
Mas falar de uma ética que inclua os animais não humanos como parte da comunidade moral equivale a tentar virar o mundo de cabeça para baixo.
E tratar desse assunto pode ser tanto mais difícil quanto mais alto o nível de escolaridade das pessoas.
Isso porque, dependendo da área em que trabalham, ou estudam, pode haver conflitos de interesses.
Agir de forma eticamente correta é geralmente mais difícil porque, frequentemente, nos vemos forçados a abandonar nossas zonas de conforto mental para abrir mão de práticas (ou costumes) moralmente injustificáveis, independentemente de o quanto isso possa nos afetar.
A maior parte dos alunos das fases finais de cursos de graduação como as Ciências Biológicas, Bioquímica, ou Farmácia não deseja ouvir discursos inconvenientes que abalem suas convicções, construídas ao longo da graduação, quanto ao que seja fazer Ciência.
Numa experiência acadêmica recente, que durou três semestres, me senti diversas vezes como se estivesse falando para uma parede de granito.
Mas a resistência dos alunos em ouvir o que poderíamos chamar de “lado B” da experimentação animal – e outras relações especistas – é um mero reflexo do ambiente em que estão.

Os estudantes espelham as visões de mundo de seus professores. E, entre estes, praticamente não há vozes contrárias à vivissecção.
Os poucos que não “simpatizam” com a prática tampouco a condenam de forma aberta e sistemática. A questão – de ser contra ou a favor – costuma ficar na esfera das convicções pessoais, ou seja, o assunto não é tratado como algo que mereça uma reflexão acadêmica.
Isso se deve, mais uma vez, ao fato de não se tratar o tema sob o ponto de vista epistemológico.
Vale destacar também que, como os animais não são vistos como pertencendo à comunidade moral, muitos professores preferem não se indispor com seus colegas vivisseccionistas.
É preciso pontuar, inclusive, que nas Ciências Biológicas é relativamente comum sacrificar vidas animais para estudar.
Ainda que tais práticas não se constituam em “experimentação”, isso contribui para “esfriar” eventuais críticas à vivissecção.
Além disso, há o aspecto do prestígio e da produtividade acadêmica.
Mais uma vez cito os Greek, que comentam que, enquanto um pesquisador clínico publica um trabalho, um vivisseccionista publica, em média, cinco.
Isso acontece porque “um rato é um animal que, quando injetado, produz um artigo”, enfatizam eles.
Já presenciei algumas cenas nas quais os estudantes são insuflados por seus professores a adentrarem esse mundo da produtividade acadêmica (sic).
Parece não ter a menor importância o fato de estarem construindo suas carreiras rolando por sobre os cadáveres de indefesos seres sencientes.
Isso coincide, lamentavelmente, com a crítica de Milton Santos à “universidade de resultados”, consequência de comportamentos pragmáticos e raciocínios técnicos que atropelam os esforços de entendimento abrangente da realidade.
No caso especificamente da vivissecção, aceitamos tudo isso porque somos especistas.
Não levamos a sério o sofrimento dos animais.

ANDA – Você considera que a criação de “comissões de ética no uso de animais”, no que tange ao ensino ou à pesquisa científica, poderá salvaguardar alguns interesses dos animais?


Paula Brügger – Como ex-membro de uma das primeiras comissões desse tipo no país, posso afirmar que tais fóruns de deliberação são ineficientes porque são formados predominantemente por vivisseccionistas e, por conta disso, se tornam tendenciosos.
Vivenciei ao longo do meu mandato situações desconcertantes como: pesquisadores que desconheciam os métodos substitutivos ao uso de animais, bem como os avanços científicos em suas áreas (em mais de trinta anos de pesquisa com modelos animais); protocolos que buscavam renovação com base em critérios produtivistas como publicações, dissertações e teses, ou seja, com base em seu valor instrumental e não no valor intrínseco (que seria o avanço científico em si); e protocolos que eram aprovados porque alguns membros da comissão alegavam não ter competência para questionar seus colegas.
Com isso, durante o período em que participei da comissão, apenas uns poucos protocolos foram reprovados com base na total inobservância de critérios mínimos, tanto científicos, quanto éticos.

Eram simples “experimentações” que alguns colegas mal acostumados vinham praticando há décadas, sem que houvesse qualquer questionamento acerca delas.
Mesmo assim, ouvi dizer que algumas dessas “pesquisas” acabaram acontecendo por causa do hiato entre o início do experimento e a negativa por parte da comissão, às vezes demorada.
Tivemos, contudo, um saldo positivo: um colega que trabalhava com animais deixou de fazê-lo.
Outros avanços que poderiam ser mencionados – como um maior empenho na clareza dos objetivos e nos critérios científicos adotados em diferentes protocolos de pesquisa – devem ser vistos com cautela.
Como a aprovação de protocolos por parte dessas comissões é uma condição sine qua non para que um trabalho seja publicado em revistas e periódicos de prestígio, a motivação para aprimorar um protocolo pode ter pouco a ver com valor intrínseco da pesquisa, no sentido lato de avanço da ciência.

O fato é que a posição dos vivisseccionistas é bastante confortável, já que eles não têm que se encarregar, verdadeiramente, do ônus da prova de que é preciso aniquilar tantas vidas.
Essas comissões acabam, com isso, legitimando uma ciência especista, sob o manto de uma suposta avaliação ética.
Mesmo que todos os problemas citados não tivessem existido, ou que possam hoje ser minimizados, tais comissões não salvaguardariam os interesses dos animais porque seu fundamento não é abolicionista.
Aliás, mais correto é dizer que tais problemas existem precisamente porque os valores que fundamentam as comissões não refletem uma mudança paradigmática, mas, na melhor das hipóteses, uma visão bem-estarista ou reformista, como destaca Tom Regan.
A verdadeira mudança paradigmática não propõe “jaulas maiores”, mas “jaulas vazias” pois, ainda que os experimentos resultassem em dados úteis e confiáveis, não temos esse direito.

Não é absolutamente razoável rotular como “radicais”, ou “obscurantistas” movimentos que, baseados em dados científicos e reflexões fundamentadas na mais recente epistemologia, questionam a legitimidade da prática vivisseccionista.
Não se pode afirmar que não seja possível prescindir dos modelos animais porque não há investimento algum (nem em educação, nem em pesquisa) no uso de alternativas, sejam elas técnicas substitutivas ou alternativas no sentido lato (como bancos de dados clínicos, epidemiológicos e outras fontes de informação).
E isso acontece por diversas razões.
A principal delas é, mais uma vez, a falta de uma visão sistêmica na construção do conhecimento. Avanços significativos, especificamente no que toca aos fármacos, poderiam advir da adoção de novas técnicas e procedimentos, já existentes – que evitariam a etapa de testes com animais – e da ampliação da fase de estudos clínicos.
A observação sistemática dos efeitos colaterais de fármacos já existentes, inclusive os efeitos positivos que resultariam em novos valores de curas, também traria uma inestimável contribuição.
A inclusão em larga escala de antigos e novos métodos como os estudos in vitro, epidemiologia, observação clínica, autópsias etc. – e as simulações por computador, química combinatória e modelagem matemática – permitiriam, também, mudar a forma dominante de se fazer pesquisa.

A epidemiologia, hoje, é grandemente facilitada pelo fato de que dados médicos podem ser acessados por computador, rastreando informações sobre milhares de pacientes em diversas instituições.
Nunca houve um período histórico com tantas possibilidades de unir novas tecnologias a práticas tradicionais.
Nunca houve uma condição tão favorável para acabar com a vivissecção, fazendo interagir os avanços nas ciências da vida (como a epigenética, por exemplo) com a tecnologia e as ferramentas de gestão do conhecimento.
Não podemos dizer que não vai dar certo algo que não foi tentado.
Seria como se alguém, ao “rés-do-chão”, olhasse para o alto de uma escadaria e dissesse: “não consigo subir”, sem que ao menos tentasse dar o primeiro passo.
Certa vez um colega vivissecionista criticou os defensores do abolicionismo animal alegando, entre outras coisas, falta de coerência entre seus praticantes.

Ele argumentou que, quando precisamos de um medicamento, damos “graças a Deus” de termos a chance de nos curarmos.
Sem entrar no mérito de o quanto nós, antivivisseccionistas, conseguimos manter nossa saúde mais às custas da prevenção, do que de intervenções, não é difícil imaginar uma situação análoga em que um abolicionista no século XIX fosse criticado por usar roupas de algodão colhido por escravos, como se essa fosse a única forma de produzir, colher e manufaturar tais produtos.
Poderíamos ir longe com este tema, mas vou ficando por aqui.
Quem desejar ler mais sobre o assunto poderá encontrar diversos textos muito esclarecedores na Internet, inclusive em língua portuguesa.
Encerro com uma frase meio poética, meio epistemológica: não sei se navegar é preciso, mas realizar experimentos em animais não é preciso.

http://www.anda.jor.br/28/05/2011/para-alem-da-vivisseccao-rumo-a-uma-etica-ecologica-e-anti-especista